quinta-feira, 15 de novembro de 2012

CRIANÇAS NO ALÉM

Minha querida Mamãe, meu querido Papai. Estou obedecendo ao meu avô Joaquim (1) que me trouxe para escrever. Peço para que me abençoem. Querida Mamãe, a senhora pede notícias e rogou tanto, mas tanto, perante as orações, que me vejo aqui para trazer a esperança ao seu coração e fortalecer em meu pai a confiança na vida. Não sei como fazer isso direito: escrever falando o que se passa. Meu avô está me auxiliando, mas, por dentro de mim, estou como quem traz o pensamento tropeçando na vontade de chorar. É preciso ser forte e ser um homem para receber um compromisso desses. Papai sempre nos ensinou que devemos ser valorosos com a luz da coragem na frente de nossos passos, mas é tanta dor para vencer, querida Mamãe, que eu não tenho forças para remover a situação. Meu avô diz que não devo procurar desculpas e sim tomar o assunto sem mais demora. Por isso, quero dizer a você, Mãezinha, para confiar em Deus e na vida. Papai é calado e tantas vezes sem manifestações iguais às nossas (2), mas para ele também estou garatujando esta carta. Rogo a vocês para não se deixarem dominar pelo sofrimento, embora este conselho deva ser ditado para mim mesmo. Estamos assim como num telefone direto, em que o fio do lápis vai formando as minhas palavras, sem que eu possa receber as palavras de meus pais queridos, ao mesmo tempo. Sei tudo o que tem acontecido. Sei, Mãezinha, que a senhora está sendo considerada uma pessoa em perturbação mental (3). Mas nós entendemos daqui as suas aflições. Três filhos esmagados quase ao chegarem em casa... E a nossa separação de repente. Isso transtornaria o cérebro de um gigante, quanto mais os nossos corações sempre ligados pelo carinho. Desde que acordei aqui, ouço os seus gritos do coração: suas palavras que não são faladas, suas preces de aflição no silêncio e suas lágrimas que ai na Terra ninguém vê... Mas peço à senhora, em nome da nossa Sheilinha, do João Batista e em meu nome, para viver e viver com fé em nosso reencontro. Mamãe, se não fosse a falta que a gente experimenta de casa, se não fosse a voz da senhora e do papai por dentro de mim, eu diria que tudo está bem. Mas posso dizer agora que tudo melhorará, quando melhorarem na paciência e na confiança. Estamos num parque de crianças que vieram para cá apressadamente (4). Temos tratamentos, exercícios, lições e muito carinho. Muitos meninos já crescidos ajudam os menores e são auxiliares de enfermeiras queridas que nos amparam, como sendo filhos do coração. Temos repouso, mas o repouso é atravessado pelas recordações que se fazem tão vivas como se fossem relâmpagos coloridos e parados em nossas lembranças. Nessas telas da alma, vemos o que se passa à distância e, além disso, suas vozes, Mãezinha, nos alcançam por todos os meios. Peço a você – a você que é nosso querido anjo da guarda – entregar a Deus os acontecimentos de fevereiro (5). Não chore mais com desânimo e aflição. A senhora, sempre carinhosa e sempre imensamente boa para nós, não choraria mais com tanta angústia se visse a nossa querida Sheila cair de aflição, querendo ir ao seu encontro sem poder (6)... Ajude-nos, querida Mamãe. Aqui temos muita gente dedicada ao bem. A Irmã Luiza nos abençoa – benfeitora que não conheci - e um santo a quem devemos chamar por Irmão Ukuru nos cerca de muito amor, quase todos os dias (7). O tio Diogo (8) e o avô Joaquim são companheiros que tudo fazem por nosso auxílio. De tia Maria (9) nada sei. Pergunto por ela, mas recebo apenas a notícia de que ela vai bem. De certo modo, ainda não estou muito em mim. Se tivesse de retomar os estudos aí em casa, creio que não seria possível. Tenho a cabeça assim aflita, como quem não saiu de um susto muito grande e não posso lembrar com muita insistência aquela veraneio (10) e nem a nossa casa em Perus, porque me sobe uma emoção ao cérebro que dá para tontear; mas o avô Joaquim me diz que tudo vai melhorar quando a senhora e papai estiverem mais fortes. Nós estamos todos unidos sem que eu saiba como é isso. O pensamento é uma força, mas não sei ainda explicar o que sinto. Mamãe, não fique parando o olhar em nossas lembranças. Tudo o que foi nosso – de nós três – dê a outras crianças em nosso nome. Ficará para nós o coração inteirinho, porque a senhora, papai, João Batista, Sheila e eu não nos separamos. Peça energias para nós nas preces do seu carinho de sempre. Mamãe, as lágrimas são forças de Deus em nossa vida, e por isso, nenhum de nós está livre de chorar, mas as nossas lágrimas devem ser orações – orações de gratidão e amor, paz e fé. Um dia estaremos todos juntos, mas não deseje vir para cá como quem força a entrada de uma casa desconhecida. Pouco a pouco, entenderemos as razões de tudo o que sucedeu. Rogamos para que a ninguém seja atribuída qualquer culpa pelo acidente. O veículo poderia estar sendo guiado por nós. Ninguém cria problemas de trânsito por vontade própria, como no caso em que nos vimos. Mamãe, queremos a paz, a paz de todos. Ajudem, a senhora e meu pai, a termos paz. Não se queixem. Vamos cultivar a saudade na igreja do amor ao próximo. Temos tantos irmãos nas calçadas e nas ruas, pedindo auxílio! Sejam eles, filhos também de seu coração. Aqui, muitos pais de meninos desamparados oram conosco pelos filhos que sofrem no mundo, mas eu sei que a senhora e meu pai serão auxílio e benção para esses meninos, filhos de tantos amigos bons que nos amparam aqui. Não posso continuar. Mamãe, abençoe os filhos que somos nós aqui, sem você, mas contando sempre com a senhora para ficar mais fortes. Deus nos auxiliará. Hoje, tenho mais fé. Em nome dos irmãos e em meu nome, deixo a vocês, em casa, o nosso beijo de respeito e de amor. E recebam, com o abraço do avô Joaquim, todo o coração do filho, sempre filho reconhecido

 MARCOS

 Uberaba, 12 de dezembro de 1975
















































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