quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A MEDALHA

Quando menino, ganhei uma medalha na escola, como prêmio ao aluno que sabia ler melhor. Senti-me feliz e estufei de orgulho.




Quando a aula terminou, voltei para casa correndo e entrei na cozinha como um furacão. A velha empregada, que estava conosco havia muitos anos, ocupava-se no fogão. Sem nada comentar, fui direto a ela, dizendo-lhe: – Aposto que sei ler melhor do que você. E estendi-lhe o meu livro de leitura.



Ela interrompeu o seu trabalho e tomou o volume. Examinando cuidadosamente as páginas, terminou por gaguejar: – Bem, meu filho... eu... eu não sei ler.




Fiquei atônito. Sabia que papai estava em seu escritório àquela hora e voei para lá. Ele erguei a cabeça quando entrei, suando, com o rosto em fogo e lhe disse: – Imagine, papai, a Maria não sabe ler. E é uma velha. Eu, que ainda sou pequeno, já ganhei até medalha. Olhe só! E estufei o peito para a frente para que ele visse o meu troféu, e perguntei: – Deve ser horrível não saber ler, não é, papai?




Com toda a tranquilidade, meu pai ergueu-se, foi até uma estante e voltou de lá com um livro. – Leia este livro para eu ver, meu filho. Foi maravilhoso você ter ganho a medalha. Leia para eu ouvir.




Não titubeei, abri o volume e olhei para meu pai cheio de surpresa. As páginas continham o que parecia ser centenas de pequenos rabiscos. – Não posso, papai. Eu não entendo nada disto que está aqui. – É um livro escrito em chinês. Imediatamente me lembrei do que fizera com Maria e me senti envergonhado. Papai não disse mais nada e eu, pensativo, deixei o livro em sua escrivaninha e saí. Até agora, toda vez que me sinto tentado a jactar-me por qualquer coisa que tenha feito, lembro-me do quanto ainda me falta aprender e digo de mim para comigo: – Não se esqueça de que você não sabe ler chinês!




LIVRO - E, Para o Resto da Vida...
Wallace Leal V. Rodrigues

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